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No BBB como na vida: saúde mental num jogo feito para ferir. Um abraço.



Autor: Héder Bello


O Big Brother Brasil é, em muitos aspectos, uma representação concentrada da sociedade neoliberal contemporânea. Ele funciona como um laboratório social onde o entretenimento é produzido a partir da lógica da escassez, da competição e do conflito. Pessoas são colocadas em confronto direto, forçadas a encontrar defeitos umas nas outras, a se atacarem, a denunciarem falhas mesmo quando elas não existem. Isso não acontece por acaso: é o próprio jogo que fomenta e estrutura essas dinâmicas, criando dispositivos que obrigam os participantes a se anularem mutuamente para que apenas um vença. O prêmio — fama, dinheiro, reconhecimento — vem, quase sempre, à custa do outro.


Acabei de assistir a uma cena que exemplifica bem isso: duas participantes nordestinas, Aline e Renata, estavam em uma dinâmica chamada “Sincerão”, na qual precisaram retirar o acesso da outra a áudios enviados por pessoas queridas, retirar objetos com alto valor afetivo para que elas não tocassem e triturar fotos de entes queridos — família e amigos. Ou seja, foram colocadas uma diante da outra para destruir o vínculo emocional da outra com suas raízes e afetos mais íntimos, dentro de um embate promovido pelas regras do jogo. Elas se ofenderam, apontaram falhas, se atacaram verbalmente. Mas, ao final, abraçaram-se em prantos, dilaceradas por uma dor que não era delas, mas que foi produzida por um sistema que transforma o afeto em munição e a dor em espetáculo.


Esse abraço é um gesto político.


Num espaço programado para o embate, a cena do abraço e do choro coletivo rompe — ainda que por um instante — com a lógica de guerra que o jogo impõe. É um gesto de resistência semelhante àquilo que Audre Lorde propõe quando afirma que a raiva precisa ser transformada em clareza, em possibilidade de encontro e em potência de reconstrução. Essas mulheres, vistas como rivais dentro de um jogo moldado para gerar antagonismo, criaram, com o abraço, um espaço de reconexão e reconhecimento mútuo. Elas não são inimigas. Foram forçadas a representar esse papel.


Douglas Barros nos ajuda a entender que a gestão da diferença, na lógica capitalista, frequentemente transforma identidades em ferramentas de disputa, não de coalizão, de articulação. O BBB, como microcosmo da sociedade, mostra exatamente isso: ao invés de unir as pessoas em torno de suas dores compartilhadas e potências comuns, as regras do jogo exigem que se anulem mutuamente para que apenas uma seja premiada.


Paulo Freire já nos alertava sobre o risco do oprimido internalizar a lógica do opressor e, ao conquistar poder, simplesmente inverter a direção da violência. No Big Brother, vemos isso dramatizado: pessoas que poderiam ser aliadas acabam se tornando adversárias porque o sistema exige esse desempenho. Mas quando duas supostas inimigas se olham, se reconhecem na dor, se permitem a vulnerabilidade e se abraçam — ainda que sob as câmeras —, ali há algo de profundamente subversivo.


Não é apenas um momento bonito de emoção. É um alerta: vivemos em um sistema que nos programa para nos destruir uns aos outros em nome do mérito, da fama, da validação. Reconhecer isso, chorar juntas e recusar o papel de inimiga são atos de resistência. E talvez o início de uma outra forma de jogo — onde o que está em disputa não é quem vence, mas como podemos, juntas, interromper a lógica da destruição mútua.

 
 
 

1 Comment


Maravilhoso! 👏🏻👏🏻👏🏻

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